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Publicado em 20.11.2008

Nasi abre o jogo sobre o fim do Ira!

do A Tarde

Sempre direto e incisivo, Marcos Valadão, o Nasi, aproveitou a passagem por Salvador, onde se apresenta ao lado do grupo paranaense RelesPública, amanhã e depois, às 22 horas, no Groove Bar, na Barra, para conversar com o repórter Marcos Casé sobre os fatos que o levaram a deixar o grupo Ira!, um dos mais importantes da história do rock brasileiro. Muito magoado, ele diz que foi enganado pelos companheiros e traído pelo irmão e empresário do grupo. A trama inclui ainda uma tentativa de interdição dos direitos e responsabilidades civis, falta de cumprimento da prestação de contas dos shows e rendimentos da banda e desavenças com o guitarrista Edgard Scandurra.


A TARDE | É a primeira vez que você toca com o show solo aqui em salvador?
Nasi |
Não é nem exatamente o show solo meu ainda. Esse show é uma parceria com a RelesPública, banda curitibana, que digamos, é uma cria do Ira!. Mas digamos que é a primeira vez que me apresento desde a separação da banda.
 
AT | Salvador não conhece ainda o som dos caras ao vivo.
N | A cena curitibana, assim, é bem isolada. Esse show que eu faço com eles há uns 5 anos e que começou em canjas de bares e participações em festivais e em DVD da MTV. A gente transformou isso num show. Comecei a fazer mais intensamente até na época do Acústico MTV, até pra matar a saudade de barulho de show elétrico. E é um show que a gente fez muito pela região Sul do País, como Paraná, Santa Catarina e até Rio Grande do Sul. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais não conhecem muito esse show. Nele, eles mostram muito do repertório da banda, que tem influências muito próximas com a do Ira!, seja o rock inglês dos anos 60, como The Who, Kinks, Small Faces, e também influências do punk-rock inglês do The Clash. E até diria que eles tem influência do Ira!. Eu acho que o Fábio Elias tem as melhores qualidades do Edgard (Scandurra) como guitarrista e até uns trejeitos também.
 
AT | Em discos eles são muito bons.
N |
E ao vivo é mais legal ainda. E eles têm aquela pureza, sabe, de quem ainda não entrou no mainstream?. Por isso que é mais bacana ainda. O sucesso que eu desejo pra eles é ao mesmo tempo essa falta de sucesso de mainstream, que mantém uma pureza. Então esse encontro é de banda e artistas que tem influências de linguagens muito próximas de rock. Ao longo do show eu canto algumas coisa do Ira!, diga-se de passagem só com eles eu canto certas coisa do Ira!, que nem no meu show eu canto mais, por exemplo, sei lá, Envelheço na Cidade, Flores Em Você, O Girassol, que são músicas que hoje em dia não toco no meu show, até porque eu acho que elas são emblemáticas demais de uma imagem altiva que o Ira! tinha. Agora com eles, eu acho que eles têm uma pureza de coração que podem tocar isso daí, entendeu? Então eu passo por algumas músicas do Ira!, toco Raul Seixas,  toco Sociedade Alternativa, toco Lucy In The Sky With Diamonds, versão Você Ainda Pode Sonhar. Aí revisito algumas influências próximas, a gente toca The Clash, Iggy Pop, The Who, então é um show de rock’n’roll do começo ao fim.
 
AT | Você conhece a cena rocker de Salvador?
N |
Não conheço muito, mas com certeza sempre teve coisas muito legais aí. Na verdade eu conheço Cascadura, que vi na MTV e achei impressionante, muito legal, bem diferente de tudo. Retrofoguetes eu conheço também, eu tenho um CD deles que eu acho do caralho.

AT | Conversei com o Fábio Elias (guitarrista do RelesPública) e ele disse que, inclusive, vocês nem ensaiam.
N |
Não, mas é porque esse show, bem eu nem sei dizer pra você quantos shows com a RelesPública eu já fiz, mas já deve passar de uma centena. A gente já se conhece bacana. Agora a gente conversa, falca muito por telefone, a gente monta um set list, eu tiro músicas, ponho músicas, por exemplo, eu sugeri duas músicas aí, pro show em Salvador, que a gente vai tocar pela primeira vez e sem ensaio, que são Será, do Legião, e Até Quando Esperar, que é da Plebe Rude. To afim de tocar essas músicas e falei pra eles tirarem no tom original com o andamento um pouquinho mais rápido, mas é como te falei, esse trabalho é de cumplicidade e de curtição que a gente faz as pessoas curtirem também, não é um trabalho de elaboração. Aí é mais festa com um cantor e um trio acompanhando. A gente não tá tentando definir uma estética própria. Eles tem a onda deles, eu tenho a minha onda e na hora que entramos no palco, mostramos as coisas que temos em comum.

AT | Vamos falar um pouco do Ira!.
Nasi |
Claro, eu sou o Ira!.

AT | Mas falo da figura emblemática da banda.
N |
Desculpa, vou te atrapalhar só um pouco porque  acho que os outros não honraram a camisa que vestiram ao se posicionar da maneira a favor do capital, não o Inicial, mas o capital do Karl Marx.

AT |  Você ainda se relaciona de alguma forma com eles?
N |
Só com o Gaspa, que toca comigo. Os outros, por advogados. Não deixa de ser rock a maneira que acabou. Às vezes tudo vai pra debaixo do tapete, por isso tinha coisas malresolvidas no grupo e que estavam indo sempre pra lá. Só que  chegou uma hora que esse tapete explodiu, porque era de uma casa de uma banda de rock e não de uma família burguesa e hipócrita.

AT | Conta esta história.
N |
Foi uma lambança geral, onde um empresário, ainda com agravantes de problemas familiares, reinou sobre a nossa divisão. Recentemente li o livro com as melhores entrevistas da Rolling Stone e tem uma do John Lennon logo após o fim dos Beatles. Ali parecia que estava vendo o Ira! acabando. O John dizia como estava angustiado de pedir para dar um tempo. Me identifiquei com aquilo. Lembro como as pessoas ficaram tristes quando os Beatles acabaram. Algumas bandas  têm uma identificação que  representa muito mais que música. É um valor familiar. Por isso a gente sofre, mas não se pode esquecer que dentro existem seres humanos com problemas e desejos, que não podem ficar tratando tudo como um circo, quando se pinta o palhaço e vai para o picadeiro todas as noites. Às vezes é melhor um final, seja qual for, do que uma vida eterna de mentiras.

AT | E tem a relação com seu irmão, Airton Valadão Rodolfo Júnior,  que é o empresário do Ira!.
N |
Exatamente, toda a história que acabou na polícia. Pra mim, quem ficou debaixo de toda a ruína fui eu. Mas graças a Deus saí como um bom Wolverine do meio desse cimento, limpei a poeira e estou pronto pra outra.

AT | E a história da sua intervenção, já resolveu?
N |
Deixa eu explicar. Assim como o empresário-irmão se utilizou da banda como escudo para impedir que me valesse de direitos  de trabalhador, porque eu sou um músico e tenho direitos que estavam me sendo negados e muitas coisas não estavam corretas na nossa relação de prestação de contas, ele usou a banda como escudo pra tentar conseguir a minha primeira tutela na área civil. Depois tentou usar o meu próprio pai. Eu nunca mais falei com o meu pai, que é um homem de 75 anos com quem eu me dava muito bem e que a última vez que encontrei foi dois meses antes da interdição, no Dia dos Pais, onde nós nos divertimos muito. O empresário  o usou  simplesmente como um laranja. Porque sendo meu pai um homem que mora numa cidade distante do sul de Minas, e que ganha quatro salários mínimos, não poderia pagar os advogados caros que contratou pra  tentar uma ação completamente esdrúxula, que era impedir  de responder por minhas ações civis. Felizmente e graças a Deus e à boa vigilância, serenidade e competência da justiça, as coisas estão se resolvendo.

AT | Quão ardilosa é a trama?
N |
Estou revelando esse final de semana em matéria na revista Istoé pela primeira vez, o que agora é fato dentro da corregedoria da Polícia Civil do Estado de São Paulo. No dia 25 de outubro (de 2007), dia que saiu a notícia da minha interdição, veio aqui na porta da minha casa, às 21h30, um delegado famoso e o advogado dito do meu pai, com dois enfermeiros e uma camisa-de-força, pedindo pra eu sair e assinar um documento fictício. Tinha todo um circo armado do lado de fora do meu condomínio, inclusive com uma rede de televisão. Você entende toda a cena que estava montada? Se eu saísse eles me pegavam. Foi minha intuição que me fez ligar para a delegacia, da qual ele se dizia oficial, e ouvir da própria delegada de plantão para não sair, pois estavam aprontando pra mim. Essa delegada foi minha testemunha na corregedoria e o tal delegado confessou tudo, por isso estou te contando agora. Então não existe mais controvérsia.

AT | Uma  realidade fantástica.
N |
Essas coisas acontecem. A gente acha que é imaginação de novelista, mas existe uma indústria de se internar pessoas, por questões de patrimônio familiar. No meu caso até brinco que eu seria a primeira pessoa internada por consumir Cabernet Sauvignon, porque eu estava cozinhando aquela noite, esperando uma visita. Hoje  rio de tudo isso, porque o jogo virou, mas isso é muito sério. É tentativa de cárcere privado.  É algo que destruiria minha vida e até a de minhas filhas. Talvez existisse um grande festival onde o hipócrita do Edgard [o guitarrista Scandurra] estaria à frente falando assim: “Poxa vamos fazer esse ‘Nasi Aid’”. Por isso que  não o perdôo e digo para você, isso é independente da composição. Às vezes uma boa comida pode ser feita independentemente da higiene do cozinheiro.

AT | E como você ficou?
N |
É muito parecido com o filme O Bicho de Sete Cabeças, só que no filme o rapaz consumia droga. Só que eles usaram um dos patrimônios que eu tenho maior orgulho, que foi a luta que tive, e que graças a Deus venci, contra a cocaína há 11 anos. Estou limpo de cocaína há 11 anos e meio. Nunca tive nenhum problema pra dizer sobre o meu calvário e a minha experiência pra aconselhar as pessoas a procurarem um tratamento, porque dá certo sim. Nunca escondi quando usava, não é depois que parei de usar que vou esconder que usei. Nós vivemos numa sociedade muito hipócrita. As pessoas têm mais preconceito com alguém que se submeteu a um tratamento do que aquele que fala que usa socialmente. Então o que eles fizeram foi usar todo o meu histórico pra dizer que eu tinha recaído. E tudo daria certo, todas as pessoas, até as que me amam, acreditariam na história. Eu não podia falar isso antes, pois senão eles poderiam usar tudo o que dissesse contra mim. Iam dizer que eu estava maluco, que isso era mania de perseguição. Mas agora tudo já foi esclarecido.

AT | Então posso chamar 2008 de o ano da virada para o Nasi?
N |
É sim. No final de semana passado fui para Minas e a repercussão foi tão boa que tive que fazer um show extra no domingo. Estou muito feliz por voltar a Salvador, tenho parentes aí e nesse momento da minha vida eu quero muito ver o candomblé, que eu conheci aí na Bahia, em 1988, e que hoje me ajudou muito a superar toda essa crise.

AT | Você falava de outras mudanças.
N |
Não que queira ser simplista, mas eu acho que uma Copa do Mundo na África e o Obama como presidente dos EUA podem mudar muita coisa. Não porque o Obama é negro, Obama é africano e é mestiço e pode até ser que a gente tenha decepções, mas depois de uma coisa tão ralé, tão fuleira, como a era Bush, a gente ver um renascer da África em outros aspectos, até o religioso, é muito positivo. Porque como estudioso, hoje, eu vejo o candomblé voltando às suas origens africanas. Acho, talvez intua, talvez queira, talvez tenha uma fé, de, quem sabe, a gente vá voltar ao continente mãe e entender a riqueza milenar que ele tem.

AT |  Não existe uma volta com o Ira! nunca mais?
N |
Eu não digo que não tem mais possibilidade de voltar pro Ira!, digo que não tem possibilidade do Ira! voltar. Eu saí, mas os problemas não foram embora comigo e eu não quero mais ser parceiro do Edgard. Não tenho mais condições disso, não.  É nas adversidades que você conhece os amigos e eles não são meus amigos.


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